segunda-feira, 21 de setembro de 2015

#91 - ENTENDA O QUE É CICLOATIVISMO

Sustentabilidade e cidadania: entenda o que é cicloativismo

Além de pedalarem, os cicloativistas lutam pelo direito de optar pela utilização da bike como meio de locomoção, levantando reflexões sobre questões ligadas ao urbanismo e ao meio ambiente


Sustentabilidade e cidadania: entenda o que é cicloativismo
Foto: serzhanja
Andar de bicicleta é um prazer, além de um ótimo exercício. Pedalar nas  cidades ainda ajuda o meio ambiente, já que as bicicletas são um meio de transporte limpo, que não emite gases poluentes, além de diminuir a quantidade de carros nas ruas, facilitando a mobilidade. Nos caóticos ambientes urbanos, porém, usar a bike como meio de transporte não é exatamente uma escolha fácil, tanto pela falta de estrutura adequada quanto pela mentalidade e comportamento geral dos motoristas.
É para tornar este cenário mais favorável às pedaladas que entram em ação os chamados cicloativistas. Eles defendem os direitos de quem escolhe se locomover sobre as bikes, além de levantarem reflexões sobre o urbanismo e como isso afeta a mobilidade e o meio ambiente de uma localidade.
Os primeiros movimentos mais organizados em prol de direitos e incentivos ao uso de bicicletas surgiram na Holanda, entre as décadas de 1970 e 1980 (mas por lá já existiam grupos que se dedicavam a defender a ampliação do uso das bicicletas desde o final do século XIX). Outros países europeus, como a Inglaterra e a Dinamarca também viram se proliferar, na década de 1970, movimentos de ciclistas com um viés político e de contestação, que questionava os modelos urbanos e a forma como isso afetava a mobilidade e dificultava o uso das bikes.
Não por acaso, atualmente, as cidades consideradas as mais amigáveis para os ciclistas ficam justamente nesta região do mundo. São elas: Copenhague, na Dinamarca; Amsterdã, na Holanda; Barcelona, na Espanha e Berlim e Munique, na Alemanha. Também se destacam cidades na América do Norte como São Francisco, Portland, Boulder e Davis, nos EUA e Ottawa, no Canadá.
No Brasil a discussão é crescente e ganhou força principalmente nos últimos dez anos. Em São Paulo, maior cidade do país, já se tornou relativamente comum ver pessoas utilizando as bikes para ir ao trabalho diariamente, algumas ciclovias já facilitam o acesso e vias especiais para o lazer também lotam nos fins de semana. Não há dúvidas, porém, de que a cidade precisa passar por uma forte mudança para efetivamente oferecer segurança aos seus ciclistas. 
Mesmo com os irrefutáveis argumentos – de que o uso das bicicletas poderia ajudar a diminuir o trânsito, facilitar a mobilidade e ainda reduzir a poluição – uma camada da população ainda é resistente a deixar de lado uma cultura que valoriza a utilização de veículos automotivos como meio de transporte. Este cenário se repete em praticamente todas as grandes, médias e mesmo pequenas cidades brasileiras  deixando bem claro que, por aqui, os cicloativistas ainda terão muito trabalho pela frente.

sábado, 15 de agosto de 2015

# 90 - Mobilidade dos Excluídos.

Foto arquivo pessoal

As cidades do Brasil privilegiam a fluidez dos veículos automotores, sendo que as rotas dos pedestres e dos ciclistas não são delineadas, muito menos sinalizadas.
Os pedestres e os ciclistas, excluídos da mobilidade urbana, sem infraestrutura como calçadas, ciclovias, ciclofaixas, sinalização e respeito enquanto cidadãos, caem na marginalidade e a palavra “marginal” tem a mesma semântica de “ilegal”.
Tudo isso é consequência da exclusão dos modais “a pé” e “de bicicleta” no planejamento urbano de nossas cidades. Pedestres e ciclistas são excluídos, são “o resto”, portanto marginalizados e daí caem na ilegalidade. Cidadão sem direitos é consequentemente um cidadão sem deveres.
Portanto, embora errada a atitude da população em não respeitar a sinalização de trânsito, é importante entendermos que essa desobediência civil é uma evidência de que está passada a hora de se mudar o conceito do uso do espaço público de nossa cidade.
Falta educação, mas falta adequação também.
Veja a discrepância!
Os veículos particulares que paralisam a cidade, são responsáveis por 70% da poluição do ar, atropelam e matam  pessoas  e geram um custo social enorme. Mesmo assim a política pública não estimula o transporte público, e concentra seus investimentos em novas avenidas e viadutos que, muitas vezes, não permitem sequer a passagem de pedestres, de ciclistas ou mesmo de ônibus.
Nunca em minha vida vi aqui na cidade um fiscal  sequer advertir algum motorista que, ao virar à direita, tenha desrespeitado o cidadão na faixa de pedestre. Muito pelo contrário, a atitude dessa autoridade de trânsito em geral é de acelerar essa conversão para melhorar a fluidez dos veículos.
Esse modelo está tão enraizado como “normal” na população, que todos os pedestres atravessam as ruas com medo, correndo, acuados e “saindo logo da frente”, atitudes de excluídos.
Veja bem: eu estou focando os pedestres, pois caminhar é a forma mais natural de se locomover, imagine então pedalar! Se o pedestre é excluído, o ciclista é ainda mais.
A única forma de mudar esse cenário é vivenciar o problema. Assim, antes de condenar a atitude “ilegal” dos pedestres e dos ciclistas, é necessário experimentar “in loco” a mobilidade urbana dos excluídos.

Esses “excluídos” são a maioria da população aqui em Pedro Leopoldo , uma vez que 70% dos deslocamentos urbanos são feitos a pé, de bicicleta e de transporte coletivo.
O principal equipamento urbano que um pedestre necessita são calçadas e estas são da alçada do dono do terreno, ou seja, enquanto investe-se um zilhão de dinheiro na estrutura para os que vão de carro e muito pouco para o transporte público, o estado cruza os braços para as calçadas e nem se dá ao luxo de fiscalizá-las.
Para finalizar, não há esperanças de respeito aos ciclistas por uma sociedade que não respeita os seus pedestres!
Fontes: Revista Bicicleta e este que lhe escreve: Paulo Pereira Netto

sexta-feira, 24 de julho de 2015

# 89 SABEDORIA SOBRE DUAS RODAS



Por que será que encontramos tantas pessoas de idade avançada usando bicicletas? A bicicleta não contrasta com a terceira idade?
A bicicleta é um veículo mais antigo do que o carro e a motocicleta, os dois principais tipos de veículos motorizados que hoje dominam as ruas de nossas cidades. Depois do barco a remo, a bicicleta é a ferramenta mais antiga da história da humanidade para transportar a si mesmo usando as próprias forças.
Mas apesar de ser antiga, apesar do aparecimento de tecnologias para dispensar o uso dos músculos, apesar da depreciação ideológica sofrida nas últimas décadas, apesar de ser perigoso utilizá-la em muitas vias públicas, a bicicleta continua sendo usada pelos seres humanos, inclusive por anciãos.

Parece óbvio que isso só acontece porque a bicicleta é um veículo não apenas útil, mas, em muitos casos, vantajoso. E, para referendar isso, devemos lembrar que estamos tratando, aqui, de pessoas experientes, de pessoas que avaliam e tomam decisões.
Algumas delas possuem outros meios de transporte – têm carro ou dispõem de transporte coletivo -, mas optam por pedalar, pelo menos de vez em quando. Já outras não podem contar com nada mais além dela – e, neste caso, podemos dizer: que bom que podem contar com ela para não ficarem confinadas em casa!
Seja por opção ou por necessidade, a bicicleta serve adequadamente aos indivíduos, sem provocar efeitos colaterais para a vida comunitária. Desde sua invenção, é um meio virtuoso para fazer exercícios físicos, para gastar energia, para movimentar-se, para romper o sedentarismo, atividades unanimemente consideradas necessárias para quem se aposenta. Desde que se popularizou, é um meio eficaz de transportar-se e de transportar coisas, de acessar todos os cantos da cidade, de cumprir as funções sociais, funções que mesmo os vovôs e vovós possuem.
Muitos idosos ainda se propõem a mais. É cada vez mais comum a participação de pessoas com mais de 60 anos nos grupos de pedalada e até praticando o cicloturismo. As pedaladas em grupo são geralmente longas (em comparação com os deslocamentos corriqueiros), não raro ultrapassando 20 km, em ritmo mais intenso que os de passeio e de transporte, mas mesmo assim são cumpridas com tranquilidade até por sexagenários. O cicloturismo também não é exatamente uma moleza — as viagens podem durar até vários dias, incluindo trajetos com morros e estradas de terra, mas tais desafios são estimulantes para os vividos.
Infraestrutura de qualidade, acalmamento do trânsito e educação para a humanização do trânsito não são luxos dispensáveis. São demonstrações de respeito àqueles que chegaram onde todos nós chegaremos, ou queremos chegar.
Fonte: Revista Bicicleta
Autor: André Geraldo Soares

segunda-feira, 8 de junho de 2015

#88 - A CRIANÇA, A BICICLETA E O ESPAÇO PÚBLICO




Um bike anjo aqui em minha cidade.
De vez em quando, me emociono quando pedalando pela cidade vejo crianças acompanhadas de seus pais passar feliz pedalando sua bicicleta.
Alguém mais cético pode perguntar: e daí? Crianças andam de bicicleta em qualquer lugar do mundo. Tem sido assim há mais de cem anos, ainda mais acompanhados. Mas é que de uns anos para cá no Brasil não é bem assim e aqui em Pedro Leopoldo também. Nas últimas décadas, as bicicletas foram rareando nas ruas da cidade. As que sobraram quase sempre são montadas por adultos, sobreviventes do trânsito conturbado e caótico.
Aos meninos(crianças) sobraram os quintais -ou, mais frequentemente, os quartos. E os videogames. A trilha sonora do espaço público deixou de ser composta por gritinhos agudos e passadas em correria. Há mais de dez anos, só o que se ouve pelas calçadas é o vruuuuum dos motores fumacentos. Tornou-se muito raro ver uma criança em uma bicicleta - a não ser nas periferias pouco urbanizadas ou em praças  muito bem vigiados ou cercados por grades.
Lembro quando essa mudança começou.  Lembro que já havia no final dos anos 90 um certo clamor por "tirar as crianças das ruas". A rua, naquela época, começou a ser vista como um lugar perigoso, uma influência ruim. As grades e os muros subiram,   a sensação de insegurança cresceu e os pais passaram a achar normal manter os filhos fechados em casa ou protegidos pelos muros dos condomínios. E, sem que nos déssemos conta, começamos a achar muitíssimo esquisito pensar diferente disso. Um pai que soltasse seu filho para brincar passou a ser visto como um louco desvairado - mesmo sabendo que a falta de contato com a rua prejudica o desenvolvimento cognitivo de uma criança.
Agora parece que o pêndulo em algumas cidades brasileira começou a voltar. Nesses dias de hoje, é comum receber convites para festas infantis em praças. Vejo em toda parte comunidades se apropriando de espaços públicos e criando lugares agradáveis onde antes só havia aridez. E aí, de repente, a cidade se enche de ciclovias (São Paulo, Rio de Janeiro e outras). E foi em uma delas que vi uma foto de um menino passar de bicicleta, no centro da cidade. E aí me emocionei, e quis estar  junto com o menino aproveitando aquele delicioso  momento em uma bicicleta.

Adaptado do texto de : Denis Russo Burgierman

quinta-feira, 14 de maio de 2015

# 87 - Que presente temos a dar para a Pedro Leopoldo do futuro?

QUE CAMINHO ESCOLHER


 


Ontem Pedro Leopoldo completou 91 anos. Como será a cidade daqui a 9 anos, quando completará seu primeiro centenário?


Observando os desafios que enfrentamos hoje, um dos cenários é, sem dúvida, catastrófico. Uma cidade sem segurança pública, pouco arborizada, e produzindo cada vez mais lixo. Na paisagem, muita poluição do ar, mais asfalto e concreto,  ponte que leva a lugar nenhum, péssimas calçadas, inexistência de parques e ciclovias para os muitos ciclistas da cidade que já foi a cidade das bicicletas poderem transitar em segurança e sem poluir.
E as pessoas, claro, cada vez mais imobilizadas e trancadas: em casas e apartamentos , no carro, no trabalho, no shopping. Como em um filme de ficção, será um salve-se  quem puder.


Mas também é possível vislumbrar um cenário otimista onde, na comemoração dos 100 anos de Pedro Leopoldo, podemos ter uma cidade em que o espaço público seja o elemento estruturador, que contará com uma rede de transporte coletivo de alta qualidade, com múltiplos modais, garantindo total liberdade de ir e vir para toda a população... Os espaços privados individuais talvez se tornem ainda menores, mas estarão disponíveis para todos, e a oferta e a qualidade do espaço público e sua utilização democrática serão máximas.


Além disso, graças à recuperação dos mananciais da cidade e da mudança no modelo de gestão e consumo da água, todos os pedroleopoldenses,  poderão usufruir desse recurso. A produção de lixo também será mínima, tanto pela alta capacidade de reciclagem e reaproveitamento quanto pela diminuição do consumo.


Mas o que separa a catástrofe da utopia? Não tenho dúvidas de que a inércia pode nos levar à catástrofe. Deixar tudo como está, não enfrentar os desafios que já estão colocados hoje, não promover as mudanças necessárias pode significar que estamos construindo para as próximas gerações uma cidade completamente inóspita.


A utopia, por sua vez, não deve ser entendida como algo impossível. A construção diária da utopia é o que pode nos levar a uma guinada. Mas apenas isso não é suficiente.Outra dimensão fundamental é a da mudança cultural, e esta, me parece, já começou a acontecer.


São muitos os movimentos em Pedro Leopoldo hoje que reclamam maior participação nas definições e decisões de políticas públicas para a cidade, que atuam nos bairros, que reivindicam moradia adequada, áreas públicas, mais praças,  parques, ciclovias e espaços culturais. Que não aguentam mais o desconforto, a desigualdade e a violência no trânsito e por isso cobram mais eficiência e qualidade no transporte público, mais e melhores espaços para ciclistas e pedestres.


Fortalecer essa cultura na construção da utopia, hoje, é o melhor presente que temos a dar para a Pedro Leopoldo do futuro.